Posts com Tag ‘Roma’

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Ônibus – a revanche

Março 17, 2009

Aquilo que era ruim conseguiu ficar pior… Essa semana mais um fator negativo se incorporou ao transporte coletivo de Kiev (pelo menos ao ponto de ônibus que eu uso). Sem levar em conta o congestionamento todo o dia de manhã, com o qual infelizmente estou começando a me acostumar, e a selvageria do povo para poder conseguir um assento (é quase uma batalha para conseguir ir sentado), tudo estava indo bem – na medida do possível.

Ontem essa bagunça toda ganhou um novo elemento - o elemento humano (ou um grupo deles). Mesmo sem conhecer todos os seus vizinhos, os rostos no ponto de ônibus se tornam familiares com o tempo. Ontem apareceram rostos novos no pedaço, e infelizmente eram rostos que a população em geral não gosta muito de ver. Era um pequeno grupo de “ciganos” (Roma).

A ação acontece de forma rápida, chega um ônibus e o grupo (com crianças amarradas nas costas) tenta entrar empurrando o povo. Essa é a tática “trombadinha” usada para roubar bolsos e bolsas, afinal de contas eles não querem entrar no ônibus (e eles são expulsos se conseguem), e sim pegar dinheiro/celular/outros pertences daqueles que vão ao trabalho. Ontem uma moça foi roubada ao entrar no mesmo ônibus que eu estava.

Hoje, o grupinho se tornou um grupão (acho que ontem o dia foi bom) e o empurra-empurra mais uma vez aconteceu, uma das vítimas veio sentada ao meu lado no ônibus, ela só percebeu que tinham roubado algo de sua bolsa quando já estavamos longe da cena do crime. E claro que as pessoas comentam, e afinal de contas um grupo desse tamanho (perto de 15 pessoas) é difícil passar sem ser percebido. Uma senhora disse que viu na mão de uma dessas pessoas um “pacote de dinheiro”.

Eu não tenho nada contra os Roma (ou ciganos, se preferir) porém é triste saber que os Roma são discriminados pela atitude dessas pessoas no mundo inteiro. A cultura desse povo é rica, porém com o tempo as coisas se deterioraram e infelizmente muitos seguiram esse caminho. Eu conheço aqui em Kiev pessoas Roma bem educadas, que trabalham para ajudar seus pares (mesmo sendo uma luta difícil e muitas vezes complicada), e por isso eu me sinto muito à vontade em dizer que nem todos os “ciganos” são assim, que existem boas pessoas, honestas, etc.

Porém eu me sinto incomodado pela presença dessas pessoas no meu ponto de ônibus, especialmente porque eu quero ter a liberdade de usar o transporte coletivo sem ter que me preocupar com trombadinhas, e também porque eu gostaria que essas pessoas tivessem a chance de trabalhar honestamente, sem ser discriminadas (especialmente as crianças).

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Gadji

Novembro 28, 2008

Ser um Gadji ou Gadjo no meio de um seminário Romani é algo bem interessante. Primeiramente você não fala a língua deles, além disso existem muitas peculiaridades culturais que a gente, Gadji, entende. Hoje eu tive a chance de estar junto aos Roma (ciganos) aqui em Kiev num seminário sobre o papel dos agentes comunitários de saúde junto à população Roma na Romênia.

A atividade em si lembra muito o agente comunitário de saúde do Programa de Saúde da Família, só que mais voltado para a realidade da população Roma em termos de cultura e hábitos.

No começo eu me senti muito bem em estar junto desse grupo tão especial, e que é muitas vezes discriminado e mal compreendido pela sociedade, afinal de contas eu conheço aqui em Kiev algumas pessoas da comunidade Roma engajadas em prol de seus pares e que trabalham para melhorar a situação dessas pessoas. Gente boa, esclarecida e estudada – como diaria minha avó.

Tudo ia muito bem até que os ânimos começaram a se exaltar por parte de alguns líderes Roma (homens)… Pelo que eu pude entender o modelo de sociedade deles é paternalista (extremamente) e as mulheres não exercem papéis principais de liderança – a não ser que ela seja mulher de algum dos líderes. E os homens começaram a atacar verbalmente a organizadora desse seminário, e a questionar como é que uma mulher, e ainda por cima jovem, pode ser uma líder Roma, mesmo porque não houve concenso entre os verdadeiros líderes.

Daí o negócio virou baixaria, um cara perdeu as estribeiras e começou a gritar feito um animal selvagem (algo totalmente fora de cogitação para um evento patrocinado pelo Conselho da Europa), e eu resolvi – como Gadji – me retirar à francesa já que não havia motivo para permanecer nessa discussão.

No final das contas, eu acho que essa moça - hoje à frente do movimento Roma na Ucrânia – está certa, ela está realmente trabalhando para o bem do seu povo e tem, além de tudo, reconhecimento internacional pelo que faz… Seria muita mesquinharia usar o fato dela ser mulher para desmerecer o que ela faz, mesmo levando-se em conta as peculiriadades desse povo.

Viva as mulheres Roma!

P.S.: Gadji = “não Romani”.