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A dança do dólar

Dezembro 17, 2008

A crise financeira teve um forte impacto na Ucrânia, e a segunda geração dos efeitos dessa crise já estão sendo sentidos pela população, como por exemplo o crescente número de pequenos assaltos (carteiras e celulares nas ruas, ônibus e metro) e o aumento significante no número de assaltos à residências (como as pessoas retiraram suas economias dos bancos, o dinheiro hoje se encontra embaixo do colchão).

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No final das contas a crise aqui tem um caráter muito especial, e os oligarcas têm sim “culpa no cartório”. Veja só, um dos pilares da economia Ucraniana é a exportação de aço, e o preço do mesmo caiu bastante no mercado internacional (quase 50%), o que o pessoal resolveu fazer para compensar essa queda? Desvalorizar o valor da moeda nacional, assim eles continuam pagando os mesmos salários para seus funcionários, e mantém o nível dos lucros (em dólar).

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No final das contas o negócio é “ferrar a moeda do nosso país para manter nossos negócios lucrativos”. O que eles já esqueceram é que o preço do aço voltou a subir no mercado internacional, e mesmo assim o dólar continua se valorizando em relação ao grivnia (Hryvnia).

Devido à instabilidade com a moeda local no período de transição pós-URSS, as pessoas e os negócios não usam sua moeda local como cotação para negócios, serviços, salários, etc. Tudo é cotado em dólar, porém as coisas são pagas em grivnias. Até o início da crise a coisa estava de certa forma estável, com 1 dólar = 5 grivnias (com pequenas alterações para mais e menos). Porém agora, as pessoas que têm débitos em moeda estrangeira estão vendo suas dívidas sendo catapultadas para o espaço sideral, e a inadimplência aumentou desde o começo da crise em 2,5%.

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Isso valia 100 dólares...

Imagine a seguinte situação: a pessoa ganha por mês 1000 dólares (5000 grivnias), e paga um empréstimo fixado de 300 dólares por mês. Em Junho esses 300 dólares eram 1500 grivnias, hoje são 2700 (1 dólar = 9 grivnias). Mas espera aí, se tudo é cotado em dólar as coisa devem estar ok, não? NÃO! Pois os salários continuam sendo pagos usando a cotação antiga, ao contrário dos pagamentos que seguem a cotação oficial… Antes a pessoa deste exemplo após pagar sua dívida ficava com 3500 no bolso, hoje ele fica com 2300… E o transporte público teve um aumento de 400% em novembro, e a tarifa de água, luz, telefone, gás e aquecimento aumentaram 300%… Entendeu o problema?

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Variação do dólar Nov - Dec

Ainda por cima, a maioria dos produtos à venda na Ucrânia é importada, e nas lojas as pessoas mudam as etiquetas com preços todo dia pela manhã, e as vezes fazem isso duas vezes por dia… Um dos pontos que o FMI frisou como de extrema importância para dar o empréstimo de 16 milhóes de dólares para a Ucrânia é a manutenção de uma moeda estável. O gráfico acima mostra a estabilidade nula deste país. Aliás a Ucrânia tem o dom de “enganar para ganhar”, quando o empréstimo foi negociado o governo valorizou o grivnia “na amarra”, durou 1 semana e garantiu boas negociações com o FMI, depois voltou tudo como estava.

O meu egoísmo – eu não sou Ucraniano, e deveria ter sido contratado como funcionário internacional aqui em Kiev, porém como eu fiz meu visto permanente (por ser casado com uma cidadã Ucraniana) eu sou considerado local, e por isso não recebo em dólar, porém em grivnia. Meus colegas mais próximos são todos estrangeiros, e estão muito felizes por ver seu poder de compra aumentado em quase duas vezes, e eu – estrangeiro – me sinto quase humilhado por receber em grivnias e ver meu poder de compra (em dólar) sendo reduzido a migalhas.

E a coisa ainda não acabou, dizem que a coisa aqui vai ficar feia mesmo em 2009, e já estão até dizendo que 1 dólar vai valer 15 grivnias… Aí meu salário vai ser desvalorizado em 3 vezes, enquanto que os estrangeiros vão poder ter uma vida de rei, gastando merrecas.

Nessa dança do dólar o refrão da música (mais uma vez nesse país de imigrantes) é “Ucrânia, ame-a ou deixe-a”.

Eu quero e muito deixar.

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A crise no país das lorotas

Outubro 29, 2008

Até parece piada, porém o presidente da Ucrânia dissolveu o parlamento – de novo. Como eu sempre digo, por aqui nada mais me surpreende. O que me deixou de cabelo em pé é essa crise financeira e como ela afetou o país, ou melhor – o meu salário.

No Brasil o pessoal entrou em pânico com a bolsa caindo, dolar subindo… Aqui o pessoal entrou em crise, uma crise dentro da crise. Ao invés do pessoal ser civilizado e usar de bom senso para ajudar a economia do país, as pessoas sairam fazendo a “caça ao dolar”, e hoje você não acha dolar pra comprar aqui na cidade (sei porque preciso pagar uma dívida, em dólar, e a cada dia eu perco dinheiro pois não consigo comprar). Isso ajudou ainda mais o mercado especulativo a subir o preço do dólar, e se 1 dolar valia 5 grivas a duas semanas atrás, hoje 1 dolar vale quase 7 grivnas.

Num país com uma bolsa de valores de mentirinha, eu não sei como essa crise conseguiu ser tão violenta… Hmmm, talvez porque a inflação aqui seja a terceira maior do mundo atrás somente da Venezuela e Zimbabue… Ou será porque todos os empréstimos bancários são cotados em dólar? Ou talvez porque muitas pessoas (com medo) foram sacar o dinheiro de suas cardenetas de poupança, o que causou um rebuliço danado, tanto que o banco central Ucraniano proibiu a retirada de dinheiro de contas tipo poupança… Até parece coisa da Zélia, lembra?

Só sei que se as coisas continuarem assim esse país vai quebrar logo, afinal com todo mundo endividado até a tampa, e com o atual preço do dólar, muita gente não vai ser capaz de pagar suas dívidas e bancos vão ter que “receber em espécie” (apartamentos, carros, liquidificadores, geladeiras, etc).

E me diz uma coisa, num país quebrado – qual a serventia de imóveis ou outros bens para um banco?

No meio desse vendaval, eu – um pequeno servidor de organização internacional (que infelizmente recebe em moeda local), fiquei embasbacado ao ver o meu sofrido aumento se tranformar em cinzas, já que considerando o atual preço do dólar, eu ganho hoje (com aumento) menos do que ganhava antes, e diga-se de passagem muito menos.

E a grama do vizinho é sempre mais verde do que a nossa, principalmente se for da cor verde dólar.