A crise financeira teve um forte impacto na Ucrânia, e a segunda geração dos efeitos dessa crise já estão sendo sentidos pela população, como por exemplo o crescente número de pequenos assaltos (carteiras e celulares nas ruas, ônibus e metro) e o aumento significante no número de assaltos à residências (como as pessoas retiraram suas economias dos bancos, o dinheiro hoje se encontra embaixo do colchão).

No final das contas a crise aqui tem um caráter muito especial, e os oligarcas têm sim “culpa no cartório”. Veja só, um dos pilares da economia Ucraniana é a exportação de aço, e o preço do mesmo caiu bastante no mercado internacional (quase 50%), o que o pessoal resolveu fazer para compensar essa queda? Desvalorizar o valor da moeda nacional, assim eles continuam pagando os mesmos salários para seus funcionários, e mantém o nível dos lucros (em dólar).

No final das contas o negócio é “ferrar a moeda do nosso país para manter nossos negócios lucrativos”. O que eles já esqueceram é que o preço do aço voltou a subir no mercado internacional, e mesmo assim o dólar continua se valorizando em relação ao grivnia (Hryvnia).
Devido à instabilidade com a moeda local no período de transição pós-URSS, as pessoas e os negócios não usam sua moeda local como cotação para negócios, serviços, salários, etc. Tudo é cotado em dólar, porém as coisas são pagas em grivnias. Até o início da crise a coisa estava de certa forma estável, com 1 dólar = 5 grivnias (com pequenas alterações para mais e menos). Porém agora, as pessoas que têm débitos em moeda estrangeira estão vendo suas dívidas sendo catapultadas para o espaço sideral, e a inadimplência aumentou desde o começo da crise em 2,5%.

Isso valia 100 dólares...
Imagine a seguinte situação: a pessoa ganha por mês 1000 dólares (5000 grivnias), e paga um empréstimo fixado de 300 dólares por mês. Em Junho esses 300 dólares eram 1500 grivnias, hoje são 2700 (1 dólar = 9 grivnias). Mas espera aí, se tudo é cotado em dólar as coisa devem estar ok, não? NÃO! Pois os salários continuam sendo pagos usando a cotação antiga, ao contrário dos pagamentos que seguem a cotação oficial… Antes a pessoa deste exemplo após pagar sua dívida ficava com 3500 no bolso, hoje ele fica com 2300… E o transporte público teve um aumento de 400% em novembro, e a tarifa de água, luz, telefone, gás e aquecimento aumentaram 300%… Entendeu o problema?

Variação do dólar Nov - Dec
Ainda por cima, a maioria dos produtos à venda na Ucrânia é importada, e nas lojas as pessoas mudam as etiquetas com preços todo dia pela manhã, e as vezes fazem isso duas vezes por dia… Um dos pontos que o FMI frisou como de extrema importância para dar o empréstimo de 16 milhóes de dólares para a Ucrânia é a manutenção de uma moeda estável. O gráfico acima mostra a estabilidade nula deste país. Aliás a Ucrânia tem o dom de “enganar para ganhar”, quando o empréstimo foi negociado o governo valorizou o grivnia “na amarra”, durou 1 semana e garantiu boas negociações com o FMI, depois voltou tudo como estava.
O meu egoísmo – eu não sou Ucraniano, e deveria ter sido contratado como funcionário internacional aqui em Kiev, porém como eu fiz meu visto permanente (por ser casado com uma cidadã Ucraniana) eu sou considerado local, e por isso não recebo em dólar, porém em grivnia. Meus colegas mais próximos são todos estrangeiros, e estão muito felizes por ver seu poder de compra aumentado em quase duas vezes, e eu – estrangeiro – me sinto quase humilhado por receber em grivnias e ver meu poder de compra (em dólar) sendo reduzido a migalhas.
E a coisa ainda não acabou, dizem que a coisa aqui vai ficar feia mesmo em 2009, e já estão até dizendo que 1 dólar vai valer 15 grivnias… Aí meu salário vai ser desvalorizado em 3 vezes, enquanto que os estrangeiros vão poder ter uma vida de rei, gastando merrecas.
Nessa dança do dólar o refrão da música (mais uma vez nesse país de imigrantes) é “Ucrânia, ame-a ou deixe-a”.
Eu quero e muito deixar.

